10 clichés que os Escritores devem evitar

Leio muito sobre escrita. Não é que haja regras na escrita, nem acho que deva haver, cada um escreve como sabe, mas gosto de saber aquelas dicas tipo: 30% dos autores que escreveram isto assim, venderam mais; ou se abusares muito nisto os leitores vão-se aborrecer. 

Estes são os clichés mais básicos de escrita, mas no entanto, acredito que haja muitos livros com eles que resultam! Portanto este post não é um proibição, longe disso!, mas tenham em atenção que muitos livros não são vistos como bons por causa de certos clichés. 

Chega de conversa . Ei-los:


1. O Escolhido! - quinhentos mil livros, series, filmes, em que há um herói especial de corrida, que foi escolhido pelas profecias, pelos deuses, ou por sei lá o quê, já está tão visto que irrita. Quer dizer...eu adoro o Harry Potter, mas o facto de ele ser O Escolhido lá da profecia fez-me revirar os olhos, lamento. No entanto, é um cliché que pode resultar em maneiras originais. Tipo um anti-heroi que os leitores detestam ser O escolhido era algo que não me importava de ler. Mas vendo bem, quando leio uma coisa sobre o Heroi e o Escolhido, já sei logo que vai ele ganhar, porque, enfim, as profecias assim o dizem. 

2. Descrição do personagem ao espelho - Isto é uma luta constante para mim. Não há maneira mais fácil de descrever um personagem do que o pôr a olhar ao espelho. Mais fácil e mais preguiçosa. Há autores que nem gostam de descrever personagens para deixar a imaginação do leitor tratar disso. Mas eu gosto. Tenho sempre uma imagem em mente e quero mostrá-la a quem lê.
 O que aprendi é que não devo descrever a personagem logo de uma assentada ou extremamente pormenorizado. Pôr outro personagem secundário a olhar para os olhos verdes da X, ou o vento a soprar pelo cabelo castanho da Y, dá dicas suficientes ao leitor do físico básico da personagem, sem ser o óbvio: "Ele era assim, assado e desta altura. Os olhos eram cor de manteiga e os pés azuis." 
Descrever a personagem discretamente dá muito espaço de imaginação ao leitor, o que é bom. 
A menos que toda a história seja em volta de uma característica física do personagem, aí sim, convém ter descrição. 

3. Mau comportamento = Maus pais - gosto de vilões com história e com razões para serem como são mas chega de daddy issues por favor. E nem tenho de falar só de vilões. Há personagens e narradores que são simplesmente detestáveis mas, oh, coitados, tiveram uma infância infeliz. Também há pessoas más com pais bons. Há mais razões para a maldade e às vezes nem há razões. E, sinceramente, acharia mais interessante ler sobre um personagem que cresceu num ambiente familiar excelente e se tornou uma pessoa má. Há mais para explorar aí, não há? 

4. É mau porque sim. - Esta é a outra face da moeda do cliché anterior. O Voltorb quer destruir o mundo e toda a humanidade. Porquê?  Vingança? E tipo...vai matar todos e depois quê? Fica sozinho? O que é que faz entretanto? Quer conquistar o mundo para quê? E porquê? E não tem amigos? E não tem pessoas que gosta? Sempre podem desculpá-lo e dizer que é um louco megalómano com mania que é deus mas epá...a menos que seja mesmo um deus, penso sempre na parte humana da personagem. Ai vai ficar no castelo das trevas sozinho com os humanos todos mortos? E tem lá casa-de-banho? Caga? O que come? Fica a ler livros para a eternidade? Tornem os vilões mais humanos e verosímeis. Ninguém destrói a humanidade só porque sim.
Se for uma história com aliens, se eles são uma sociedade suficientemente avançada para conseguir fazer viagens espaciais, também não serão uma sociedade avançada com morais? Não, vamos matar tudo e todos para lhes tirar os recursos. *reviranço de olhos* 

5. Mensagens nos sonhos - Uau! Que conveniente! Já se sabe que os Urgals vão atacar porque ele sonhou com luas vermelhas e vulcões  e blá blá blá. A menos que a personagem seja mesmo adivinho, ou que caminhe para isso, chega de sonhos profetizadores. Normalmente são sonhos muito específicos e digo-vos, por experiência própria, que há muitas poucas pessoas que se lembram claramente dos sonhos que têm. Vocês conseguem ser mais originais que isso! 

6. Pôr os personagens inconscientes porque dá jeito -  Epá ele foi raptado e agora vão demorar pelo menos cinco horas a chegar às masmorras... se ele estiver desmaiado, isto é rápido. Conveniente. Ou mudar de sítio: estar numa floresta e acordar num deserto. Para já, confesso, esta é um cliché muito fácil de se fazer. Eu faço-o. Dá jeito. Mas vamos ignorar o facto de que se o personagem levou uma pancada forte na cabeça e desmaiou, provavelmente tem um traumatismo craniano e precisa de tratamento. Vamos ignorar isso. Vamos ser originais e não andar a pôr os personagens inconscientes só porque nos aborrece escrever: "Viajou cinco horas às costas daquela besta, com as mãos e pés amarrados." 

7. Pele de ébano // Pretos especiais - Esta é dois em um. Há falta de pessoas de cor nos livros. É sabido. A forma de muitos autores porem POC (people of colour) e gritar aos sete ventos que não são racistas é tornarem essas personagens importantes / especiais de alguma forma. Ajudam o herói, têm uma grande ligação com a mãe terra, são intimidantes mas no fundo são muito sábios, são altivos e serenos. Chama-se white guilt. E sim, também já caí no erro de o fazer. Podem pôr POCs na vossa história que sejam normais, ou maus, ou feios. O importante é pôr. 
Segunda questão....se voltam a descrever a pele deles usando a palavra ébano dou-vos uma estalada. Há mais cores, há mais comparações, há mais adjectivos.

8. Meteorologia sem sal. - Isto é mais para escritores de fantasia que criam um mundo diferente do nosso, mas no entanto as estações são exactamente como as da Terra. Acho a meteorologia nas histórias algo muito importante. Uma pessoa crescida num ambiente só de chuva é diferente de uma pessoa de um deserto. Lamento, mas é. Isso é preguiça em criar um mundo. A primeira coisa que me interessou na Saga Mistborn foi o facto de estar sempre a chover cinza. Deixou-me logo curiosa em saber como aquele mundo funcionava ou como isso afectava as personagens. 
Chuva, sol, vento, neve. Há trovoada, há ciclones, há cheias, há granizo. Porque não um vale onde troveja constantemente?  Ou uma cidade que está sempre inundada? Porque não uma época das chuvas a seguir às de neve? E um mundo sem uma primavera? Se não quiserem ser tão hardcore, nem focar tanto na meteorologia na vossa história, foquem-se nos pormenores. Há vento e há ventanias. Há tipos de vento diferente. Cortante, húmido, seco. Também há vários tipos de chuva. Sejam originais. 

9. Acordar no início - Quase que é metafórico pôr o personagem a acordar no início da vossa história. Está mais que visto. Não. 

10. Orfãos. - Dá taaaaanto jeito não ter de pôr os pais na história. Tanto, mas tanto jeito. Eu sou completamente culpada deste cliché. Lamento,  mas não me apetece escrever sobre os pais desta personagem. É preguiçoso, é facil e normalmente dá razões aos personagens de ser como são. (Ou muitas vezes é até o plot da história!) 



Não se deixem enganar. Escrevi pelo menos metade destes clichés nas minhas histórias.  Vivendo e aprendendo. E acho que ainda tenho de escrever muito para os conseguir evitar. Por enquanto, acho que fazem sentido nas minhas escrituras. Poderão ser criticadas por isso? É o mais provável. Mas lá está...penso que ao longo dos anos a minha escrita irá evoluir em relação a isto. 

Há ainda muito mais clichés que não falei aqui. Tipo: relações amorosas sempre cheias de drama, pai-vilão, números pares (nunca ficam presos durante 147 anos, não, é sempre 50 anos exactos! Ou 100! Ou 500!), mulheres que precisam sempre de ser salvas, etc etc

Digam-me os clichés que vocês mais cometem e os que são a favor. Ou aqueles que vos fazem revirar os olhos até terem uma visão do vosso cérebro. Quero saber tudo. Para aprender. 

4 comments:

  1. O numero um. Confesso que para mim nem sequer é um cliché, é a base da trama. Tipo "esta merda está toda a acontecer porque uma fdp duma profecia disse que aquele cabrão era o escolhido e tal." Aliás na cena que estou a escrever, a base é mesmo essa: uma profecia diz que há um escolhido e toda a gente interpreta essa profecia como quer e vê o escolhido em quem quer. Mas amo livros que tenham por base essa temática. 2, 3, 4 nunca usei. Não tenho por hábito descrever um personagem que não seja através dos olhos de outro personagem. E os meus maus são sempre maus porque querem poder. Querem estar acima dos outros, porque sim ou por outras razões mais profundas. Mas a base é o desejo de poder, isso é recorrente em mim e é um cabrão de um cliché do qual não me livro porque na volta não quero. 5, LOOOL. O que ando a escrever tem muitos sonhos premonitórios, muitas premonições, muitos transes e muitas visões, tudo coisas que têm de ser interpretadas pelos personagens e que podem levar a erros e merdas evitáveis. Mas lá está, a história decorre num mundo pleno de magia e feitiçaria, claro que mundos destes são só de si um perfeito cliché - só que não, são um género literário, tal como as profecias eheh. 6 n me lembro de alguma vez ter usado. 7 tenho personagens de pele dourada, tipo castanho dourado, não sei se são pretas se não, não pensei nessas personagens nesses termos. Não costumo incluir personagens de cor nos meus escritos. 8, amei este tópico! COncordo muito contigo neste sentido, e de forma completamente despercebida e não propositada reparei durante as correcções que fiz que ao descrever diferentes povos habitando diferentes regiões de um mundo alternativo, os modos de vida, as personalidades, os costumes, tinham muito a ver com a metereologia e o clima dos locais onde viviam. Se não tivesses falado disto eu nunca me teria passado pela cabeça, porque ao contrário de ti faço os possiveis por ler o menos possivel sobre escrita. 9 jamais em tempo algum. 10. interessante mais uma vez, porque eu não considero de modo algum um cliché - quando tenho orfãos perco mais tempo ainda a falar dos pais destes! O meu actual escrito tem muitos orfãos - e não, não é sobre um orfanato - porque ser orfão é condição essencial para se ser um certo tipo de ser mágico, i.e., aqueles personagens não teriam magia se não fossem orfãos, ou melhor, se ao nascerem não provocassem a morte das mães por parto e não viessem a perder os pais ainda bastante jovens. Com isto quero dizer que é uma orfandade justificada, penso eu, mas não me lembro de ler nada onde os personagens fossem orfãos porque não apetece falar dos pais destes. Por vezes não há qualquer necessidade de falar dos pais de certos personagens.. Aliás tenho uma personagem que é orfã por abandono dos pais, e não tenciono perder uma linha a falar dos pais dela, não interessam nada há narrativa. Sinceramente nem sei o que eu considero cliché na escrita, considero que usamos muitas muletas a escrever, a minha são os cabrões dos advérbios de modo, uso mesmooooo muito, e por vezes faço um esforço sobrehumano a tentar retira-los da narrativa. Mas o meu verdadeiro ponto fraco são os diálogos, dasse, I suck nos diálogos, nos momentos entre dialogos, ele disse, ela respondeu, fogo, vejo-me graga com isso, e depois o dialogo em si, eu sei que ninguém fala assim, mas se calhar por isso é que escolhi situar a acção num mundo alternativo looool, lá toda a gente fala assim!! Mais, quero mais posts deste género!!
    http://bloglairdutemps.blogspot.pt/

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  2. Tenho muitos amigos que escrevem e admiro-lhes o esforço que é escrever histórias tentando escapar de clichés. Nunca pensei muito sobre isto, não é a minha praia, mas faz todo o sentido x)

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  3. o #3 é algo que tento evitar, ando a explorar o "evil without a cause" porque deixa o leitor intrigadissimo, perturbado e introspectivo. pretos especiais ahahahah quanto ao acordar... depende do acordar. podes ter acordado de um coma. ou de uma amnésia. o meu pior cliché é glamourizar demasiado o anti-herói, romantizar demasiado isso, acho eu. opá, acho que tu vais gostar de ler Irvine Welsh!

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  4. Digo-te que me ri com convicção com o ponto 4...mau porque sim...é o meu tipo de vilão, o que mata a civilização e fica sentado no alpendre para a eternidade a comer sandes de atum. Isso e o facto de todos os orfãos em livros passam por usar capas ou leggins, deve ser do trauma, é ele o batman, o superhomem, o sr aranhiço...

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